Dirigindo 750km num dia – Westfjords – Islândia

A aventura que contaremos hoje será sobre uma das regiões mais lindas da Islândia – os Westfjords, no noroeste do país. Dessa vez, um batidão de 750km, percorridos num só dia! Prepare-se para mais um post cheio dos nossos já famosos perrengues de viagem (#perrenguesdeviagem).

Para ser bem claro: não! Não era o nosso plano dirigir tanto em um só dia. E sim! A gente errou o caminho e acabamos nos metendo em uma furada de proporções colossais. Mas felizmente tudo terminou muito bem e o desvio serviu para nos apresentar paisagens muito mais incríveis do que poderíamos imaginar.

 

Se você não está acompanhando a nossa viagem pela Islândia desde o início. Vale a pena explicar umas coisas. A gente estava viajando por conta própria e em vez de alugarmos um carro comum, alugamos uma campervan (uma van-trailer só que sem banheiro nem chuveiro). Contamos tudo num post só sobre isso:

Alugando uma campervan

Esta é a campervan

 

Já era o nosso quarto dia viajando pelo país e já tínhamos conhecido o essencial da capital (Reykjavík), o Círculo Dourado, as cachoeiras do sul do país, e a região de Skaftafell com direito a trekking em uma geleira e a famosa Lagoa dos Icebergs.

Veja também: Índice de posts sobre a Islândia

 

Esse era o plano que deu certo até o dia 3

Ou seja, de obrigatório mesmo só faltava a Lagoa Azul e daí poderíamos dizer que tínhamos conhecido a Islândia direitinho. Todo o resto caía na categoria “opcional”, também conhecida como “se der tempo”, ou “se rolar, rolou”.

O dia 3 tinha terminado com um passeio à Lagoa dos Icebergs. Conseguimos aproveitar os dias longos do verão islandês (era agosto) dirigindo de volta até Vík, onde paramos para dormir. O dia 4 começaria com uma jornada sabidamente longa até Holmavík, um lugar que fazíamos questão de conhecer. O que viesse depois ia depender de como fluiria o tempo.

 

Roteiro pelos Westfjords: Original x Real

O plano era bem simples. Acordar bem cedo porque tínhamos quase 600km pela frente na direção dos Westfjords. Queríamos muito conhecer a região por causa de umas imagens que tínhamos visto pela internet, de um fotógrafo que havia visitado o país.

A única certeza era visitar Holmavík, uma cidade peculiar que abriga um Museu da Bruxaria. Sim! A gente é desses. Gostamos de flertar com o sobrenatural (kkkk). E iremos contar tudo sobre esse lugar macabro mais adiante.

Daí, conforme a hora que chegássemos lá, seguiríamos ou não até Flókalundur. Segundo o que eu tinha anotado comigo, aquela estrada serpenteada entre Holmavík e Flókalundur renderia excelentes imagens.

 

Fomos dormir com esse plano na cabeça, sem saber que tudo daria errado depois…

 

Primeiro perrengue: banho às 4 da manhã camping de Vík

Em Vík, a água do camping era aquecida pelo sistema de reservatório (boiler). Quando toda a água quente fosse gasta, o ideal era que todos os hóspedes esperassem o reservatório encher de novo e a água esquentasse. Só aí todos deveriam tomar seu banho.

Tanto eu quanto a torcida inteira do Flamengo fizemos o quê? Insistimos em tomar banho mesmo com o boiler vazio, ou seja, com água fria. O Sandro até tentou, mas desistiu e enforcou o banho com o plano mirabolante de tomar banho de madrugada, quando todos estivessem dormindo.

Deu certo! Ele acordou do nada às 4h da manhã. O sol já estava alto (verão na Islândia é assim mesmo…) e depois do banho conseguiu me animar a já tomarmos café da manhã e pegarmos a estrada. E lá fomos nós, às 4:30h da matina na direção de Holmavík.

Ok. Estava combinado sairmos cedo, mas não tão cedo!

 

Fomos num retão quase que sem parar até o nosso primeiro destino. Pegamos a estrada número 1 (a Ring Road), que circunda todo o país e deslizamos suaves até a região mais ao norte da Islândia. Costumo parar mais ou menos de 3 em 3 horas para tomar um café preto e esticar as pernas e assim foi.

Loja de conveniência de um dos postos de gasolina do caminho

A gente tinha um cartão que dava direito a descontos na rede de postos de gasolina N1. E num desses postos a gente deu uma boa conferida no mapa do nosso caminho à frente.

 

Segundo perrengue: estudando errado os mapas

A gente não só tinha um GPS alugado (com mapa completo da Islândia e tudo), como também um mapa físico com a gente. E a lógica das rodovias da Islândia é a seguinte:

  • A estrada principal do país (a Ring Road) leva o número 1.
  • Todas as outras são secundárias a esta e numeradas com dois dígitos: 61, 44, 25 etc.
  • As terciárias podem não ser pavimentadas e têm 3 dígitos: 611, 448, 253 etc.
  • E tudo o que tiver a letra F no mapa são trilhas exclusivas veículos com tração 4×4.

A gente, portanto, não podia trafegar nessas estradas, sob pena de não sermos cobertos pelo seguro. Pensei no seguinte itinerário:

Não sei se dá para ver bem na imagem acima (é a foto de um painel no posto de gasolina!), mas sairíamos da estrada 61, pegaríamos a 608 e depois a 60 até Flókalundur. Nenhuma estrada F!

Mapa da região dos Westfjords na beira da estrada

Então seguimos. Mas antes falta contar um pequeno detalhe.

 

Terceiro perrengue: tudo debaixo de chuva

Chovia cântaros desde que saímos de Vík. Tanto que temos pouquíssimas fotos. Era tanta água que estragaria a câmera. Lembro bem de um túnel superlongo que atravessava uma baía antes de chegar em Holmavík (acho que é porque é a única parte da viagem em que tivemos que pagar pedágio). Mas imagem mesmo não temos nenhuma.

Para terem uma ideia da chuva

 

Mesmo assim conseguimos chegar em Holmavík super cedo. Deu tempo de visitar o museu da bruxaria direitinho, com direito a almoço em grande estilo num restaurante bonitinho da cidade. Até aí tudo certo. Barriga cheia, é hora de entrar na 608…

 

Quarto perrengue: a estrada 608!

Acho que não chegamos a percorrer nem um quilômetro sequer da 608. Imaginem uma “estrada” que, na verdade se trata de um caminho de pedras imensas no meio da relva. A nossa campervan sacudia tanto que caíram as comidas lá atrás na “cozinha”.

Lembram da chuva, né? Fomos lá para trás arrumar tudo e pegamos o nosso mapa físico para analisar as nossas opções. Qual deveria ter sido a atitude sensata? Voltar na direção de Reykjavík, lógico! Mas os animados aqui pensaram. Já estamos aqui mesmo, porque não seguir em frente?

Segundo o mapa, poderíamos ainda pegar a rodovia 60 entre Isafjördur e Flókalundur. Afinal, era uma rodovia de dois dígitos (60)! Ia demorar mais? Ia. Ia ficar longe? Ia. Mas o que é que tem? Ainda era cedo e amanhã teríamos o dia todo livre. Vai que o tempo adiante melhorava e a gente conseguia boas fotos?

 

Se vocês repararem no mapa acima, tem uma estrada F66 pontilhada ali. Até tentamos entrar nela. Mas ela era igual a 608! Ou seja, própria para veículos 4×4, não para uma van!!! Mas fomos otimistas em seguir pela 61, pois o caminho devia ser lindo.

Mirante na rodovia 61

Isafjördur é uma cidade “grande” para os padrões islandeses, então em último caso poderíamos dormir lá. Ou seja, nada poderia dar errado. E a estrada 61 continuava pavimentada e muito bem pavimentada por sinal.

Isafjordur: cidadão!

E então seguimos confiantes, realmente percorrendo uma das paisagens mais lindas do mundo. A rodovia 61 é muito boa, mas como vocês podem ver no mapa, muito longa. Cada voltinha daquela ali são quilômetros e mais quilômetros. Debaixo de muita CHUVA!

Chegamos em Isafjördur ainda relativamente cedo e pegamos o túnel na direção de Flókalundur. E aí sim começou o perrengue.

 

Quinto e último perrengue: a rodovia 60

Quando entramos na 60, adivinhem? Ela era exatamente igual a 608, pura pedra e buracos. Parecia-se muito com uma rodovia F. Mas não tínhamos mais como voltar atrás agora. Era ir ou ir.

Então começou a chover mais forte. E começou uma subida interminável. O carro patinava nas pedras. E nos pontos mais baixos da pista, tínhamos medo de atolar. Muitas vezes tínhamos que pegar a contra-mão procurando o melhor trecho. Ainda bem que nenhuma alma viva passava, porque a visibilidade era zero.

Por outro lado, se a gente precisasse de ajuda, sabíamos que nunca ia aparecer ninguém!

Aí parou de chover e entramos numa nuvem. Do lado esquerdo, percebemos que estávamos em um precipício. Visibilidade de poucos metros, escuridão total, neblina, no alto de uma montanha, sem absolutamente ninguém por perto e um PRECIPÍCIO!

Eu conseguia imaginar como aquele lugar devia ser bonito com sol e com um jipe 4×4. Mas naquele momento eu queria só ir embora dali a qualquer custo. Quando a estrada começou a descida, a pista melhorou muito. Virou só uma estrada de terra normal, com cascalhinho.

Olhando essa foto parece que eu estou reclamando à toa, né?

Quando aquilo finalmente terminou, a gente parou o carro e ficou uns 10 minutos só olhando um para o outro pensando: sobrevivemos! E sem nenhum pneu furado! Conseguimos nos acalmar e até tirar umas fotos percebendo como o lugar era incrivelmente lindo. Mas nunca, nunca, nunca queria fazer aquilo de novo! Pelo menos não sem o tipo de carro certo!

 

Roteiro ideal pelos Westfjords

Não me entendam mal. Não estou dizendo que não vale a pena conhecer essa região. Na verdade, a beleza da natureza ali é fantástica! Mas fazendo outro caminho, o original que a gente tinha planejado.

Olhem esse mapa que eu bolei:

Saindo de Reykjavík pela Ring Road (1), saia na estrada número 60 até a bifurcação para Holmavík. Se você não for tão ligado em museus de bruxaria como a gente, pode seguir pela 60 diretaço! Mas se quiser mesmo ir até lá, vá e volte pela MESMA estrada (a 61, no caso).

Você vai ver os fjordes no caminho até Flókalundur e até pode esticar até a cachoeira Dynjandi, que é mesmo muito bonita e nesse trecho, a estrada é boa. Não é pavimentada, mas é boa.

E nessa segunda parte do post, vamos mostrar o que tem de bonito nesse roteiro aí acima

 

Casa de Campo de Eirik, o vermelho

Eirik, the Red (seria Erik, o ruivo?) é um herói nacional para a Islândia e para todos os vikings do mundo. Conta a lenda que ele viveu no oeste do país, no caminho entre Reykjavík e os Westfjords e a gente pode visitar as ruínas da sua casa de campo / fazenda.

E qual o motivo de ser idolatrado? Porque ele teria sido o primeiro europeu a encontrar um caminho até as Américas, via Groelândia. Ele era nascido na atual Noruega e viveu alguns anos na Islândia antes de chegar no novo mundo.

Há uma reconstrução perfeito do que seria uma habitação viking da sua época (século 10!!! pensa! Século X!!!) e gente pode visitar e se vestir para fotos. Guias muito simpáticas estão por lá para receber os turistas que aparecerem.

Mas você pode também vir em excursões de grupos que saem de Reykjavík, num roteiro pela região.

 

Serviço

Casa de Eirik the Red
GPS Points N65° 3′ 32.979″ W21° 31′ 32.756″
Estrada número: 586 (não pavimentada, mas ok)
Site oficial (em inglês): http://www.west.is/en/west/place/eirik-the-reds-homestead

 

 

Holmavík

Agora sim, vamos falar desse lugar tão estranho, isolado e exótico que a gente se embestou de conhecer na longínqua Islândia. A cidade mesmo não tem nada demais. É pequena, tem uma igrejinha, um porto, um ou outro restaurante e só.

E um museu de bruxaria.

Acontece que a Islândia foi um dos últimos países europeus a serem cristianizados no mundo. E a religião antiga dos vikings que viviam lá permaneceu viva até muito pouco tempo atrás, mais precisamente até o século XV por aí.

Para a história das religiões pagãs europeias, isso é muito recente. Muito mesmo. Então mesmo com a cristianização, muitas regiões (como os Westfjords) permaneceram sem contato com o resto do mundo, isoladas, preservando ainda mais a sua cultura.

O resultado é que os feitiços duraram até o século XIX, quando houve a inquisição por lá. Mataram vários bruxos (homens) que eram os principais seguidores da “antiga tradição”. E como a coisa durou muito tempo, está toda registrada por escrito.

E dá para ver tudo isso lá. Os rituais, os feitiços, objetos “mágicos”, tudo bem explicadinho e cheio de detalhes.

A gente levou uma hora e meia percorrendo a exibição e resolvemos almoçar num restaurante lá perto. No próprio museu serviam uma sopa de mexilhões, mas a gente estava mais afim de outro tipo de comida.

O restaurante que a gente foi se chama Café Riis e fica bem pertinho do museu (tudo na cidade fica pertinho, na verdade). E é bem aconchegante.

A comida foi nota 10 e saímos satisfeitos e um pouco mais pobres. Afinal, tudo na Islândia é muito caro, até mesmo numa cidadezinha tão pequena e tão distante.

Bacalhau. Segundo os islandeses, o deles é o melhor do mundo

 

Serviço

Museu de Bruxaria de Holmavík
Site oficialAbre todos dias das 11:00h às 15:00h e das 18:00h às 19:00h
Ingresso (inteira): ISK 900,00

 

Cachoeira Dynjandi

Num país cheio de lindas cachoeiras, esta é mais uma delas. Bastante diferente, ela parece vir em várias camadas, como um bolo de noiva, escorrendo pedra abaixo.

A nossa imagem não fico muito boa, porque a gente só passou na estrada de longe e estava chovendo! E foi logo depois daquele trecho cheio de perrengues. Vindo do sul para o norte, o caminho é bem mais tranquilo. Sem perrengue, mas ainda assim a rodovia não é pavimentada desde Flókalundur.

Pela foto lá em cima, dá para ver um caminho que você pode pegar a pé e chegar bem pertinho dela.

 

Litlibaer e as focas

Litlibaer é uma casinha antiga ao estilo do interior da Islândia, com telhado de turfa e cheio de grama em cima. Lembra muito a casa dos hobbits, do filme “O Senhor dos Anéis”.

Na verdade é bem ao contrário. A casa dos hobbits, do livro “O Senhor dos Anéis” foi criada por J. R. R. Tolkien inspirada nas casas islandesas. Elas existem por toda o país, mas a gente parou ali nessa para clicar e para comprar umas compotas que eles vendiam.

Tudo porque tinha uma bandeira da Islândia do lado. Só por isso.

Litlibaer fica na região dos fiordes que a gente visitou por causa do nosso “pequeno” desvio. Então será um lugar você só vai se fizer o mesmo caminho que a gente. Mas tem uma coisa legal ali que a gente acabou vendo totalmente por acaso: focas.

No mar, protegida pelos fiordes, dezenas e dezenas de focas descansavam calmamente. Chovia muito, lembram? Então foi só em alguns instantes de estiagem que a gente conseguiu clicá-las. Nem sempre no lugar mais bonito.

 

Serviço

Litlibær
Site oficial
Coordenadas para GPS N65° 59′ 9.650″ W22° 48′ 59.505″

 

 

Flókalundur

Falei mil vezes de Flokalundur como se fosse um lugar muito importante, mas sem explicar bem por quê.

Na verdade o lugar não tem importância alguma. É mais um vilarejo minúsculo islandês, que passaria batido. Só que era o nosso ponto de referência para montar nosso roteiro e tem um hotel e um camping, o que é perfeito para pernoitarmos.

No restaurante do hotel, jantamos uma pizza deliciosa naquela noite. E conseguimos descansar vivos da aventura tensa que havíamos vivido, acordado desde as 4h da manhã.

 

A paisagem, claro

Uma viagem pelos Westfjords é uma viagem cênica, por uma estrada que revela uma paisagem fantástica em cada curva (e olha que curva não é o que falta por lá, viu?).

Seja pela margem norte, seja pela margem sul, pode ter certeza de que este é o lugar em que você pararia de 10 em 10 minutos para tirar uma foto mais linda que a outra.

A gente mesmo tirou centenas de fotos, mesmo com o clima não ajudando.

Imagina só se não estivesse chovendo. Se bem que todo bom fotógrafo diz que as nuvem ajudam a criar um clima dramático na cena. Como eu não sou lá bom fotógrafo mesmo, tenho o direito de reclamar sim da chuva, hehehehe

No dia seguinte (quinto dia), o tempo estava só nublado, com algumas aberturas de céu azul ocasionais.

Aí sim as fotos ficaram mais lindas.

Mas posso dizer que a margem norte é ainda mais incrível, com montanhas mais altas.

 

Enfim, espero que tenham gostado desse post e dado umas risadas com os nossos perrengues. Espero que essas imagens tenham deixado vocês com vontade de conhecer esse lindo país.

E sigam acompanhando a gente, porque a gente demora, mas a gente escreve. Falta pouco para terminarmos de contar a nossa história. Quem sabe eu termino ainda em 2016, hein?

 

Ahn! Só mais uma coisa!

E se você não quer dormir em camping e está procurando hospedagem na Islândia, não deixe de dar uma olhadinha nos nossos parceiros, o site Booking.com. Se fechar com eles depois de fazer a busca abaixo, a gente ganha uma comissão e você não paga nenhum centavo a mais por isso. Valeu!

 

Escrito por: Gleiber Rodrigues
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