Viscri – A Transilvânia do Príncipe Charles

Estão pensando que vocês são os únicos a se apaixonarem pela Romênia depois de conhecer melhor o país aqui no blog? Aconteceu o mesmo com o Príncipe Charles, gente! Não que ele já tenha lido algum post nosso, claro (mas bem que eu queria). E de todos os lugares possíveis para ele instalar seu empreendimento de turismo rural, um dos lugares escolhidos foi justamente o pequeno vilarejo de Viscri, com seus meros 57 habitantes.

Viscri Romênia - igreja fortificada

Querem saber por quê?

 

Para entender bem essa conversa, temos que falar um pouco sobre a história da Romênia. Eu prometo que vai ser bem rápido.

 

A chegada dos Saxões na Transilvânia

Entre os séculos IX e XI, a região era uma província autônoma cujo governante era determinado pelo rei da Hungria. Ali pelo século XII, os mongóis invadiram a Europa Oriental destruindo tudo o que viam pela frente. Os povos da Valáquia (de língua romena e católicos ortodoxos) acabaram se mandando para a Transilvânia para fugir dos invasores, aproveitando que as cidades tinham sido destroçadas pelos mongóis.

E foi aí que os húngaros viram que teriam de reabitá-la logo, senão iam perder seu território. Então começou a salada de frutas. Húngaros székelys começaram a migrar para ocupar a região, assim como germânicos saxões. Esses dois povos ao menos concordavam em sua religão, eram católicos romanos. Mas a quantidade de romenos ortodoxos que já tinham chegado primeiro era muito grande, então todos tiveram que conviver juntos apesar das diferenças.

 Viscri Romênia - Pórtico de entrada da cidadeLogo na entrada da cidade, tudo escrito em alemão 

 

As Igrejas Fortificadas

E o principal patrimônio arquitetônico deixado pelos Saxões (de língua germânica) na Transilvânia foram as suas igrejas fortificadas. Totalmente diferentes dos templos que dominam toda a Romênia, que é um país católico ortodoxo, essas igrejas católicas romanas chamam a atenção de longe, por parecerem verdadeiros castelos.

Viscri Romênia Muralhas e torres protegendo a igreja

A história de erguer essas muralhas tem tudo a ver com as guerras contra os turcos e contra os tártaros que tentaram colonizar a região. O papel das lideranças religiosas no final da idade média era tão grande que as igrejas acabavam sendo também o centro político e militar do país.

O resultado disso? Construções feitas para resistir e que estão ainda de pé, mesmo com o passar dos séculos.

 

Patrimônio da Humanidade da UNESCO

Quando se está viajando pelo interior da Romênia, particularmente na Transilvânia, percebemos que todas as cidades têm a sua igreja. Até aí, nada de novo. No Brasil também é assim. Só que, diferente de outros lugares do mundo, a maioria delas é fortificada. Essa “fortificação” muitas vezes é só um murinho mesmo, passaria batido para o turista desavisado.

Mas sete dessas igrejas são rodeadas por torres e muralhas tão grandiosas que qualquer um iria jurar que ali é um castelo! Por isso são patrimônios da humanidade. E a igreja de Viscri é um dos exemplos mais representativos desse estilo arquitetônico único no mundo.

Igreja que é um verdadeiro Castelo - Viscri - Romênia

Igrejas Fortificadas que são Patrimônio da Humanidade – UNESCO

Biertan

Câlnic

Dârjiu

Prejmer

Saschiz

Valea Viilor

Viscri

E por falar em arquitetura, repare como a cidadezinha de Viscri é feita de umas casinhas bem peculiares…

Viscri Romênia - casas coloridas e telhado típico da transilvânia

 

A arquitura típica dos vilarejos da Transilvânia

Não entendo lhufas de arquitetura, gente. Mas qualquer um iria notar que todas as cidadezinhas dessa região da Romênia tem algumas coisas em comum.

Em primeiro lugar, são verdadeiros vilarejos pequeninos, com gente muito simples e uma vida quase rural. E nos lugares de colonização saxônica, você vai ver que os habitantes falam alemão, mesmo depois de já terem se passado quase 1000 anos! Na ingreja fortificada de Viscri mesmo, tudo é trilíngue: romeno / alemão / inglês.

Viscri Romênia - cidade pequena

As paredes coloridas são outra característica marcante e inconfundível. Parece até que a gente está no pelourinho, ou em Trancoso, hehehe. Mas há quem diga que o mais importante mesmo é citar os telhados. Eles parecem se abrir como uma saia, ou um sino na parte mais inferior. E reparem nas telhas em forma de escama! Dão uma cor avermelhada / alaranjada quando olhamos qualquer cidade dessas do alto.

Viscri Romênia Telhadinho em Escamas

E se você gostou dessa vidinha rústica de cidade interiorana, com tantos detalhes culturais peculiares e tanta história escondida por trás desse véu de simplicidade, não foi o único. Foi justamente por isso que o Príncipe Charles se interessou.

 

A Influência da Família Real Britânica

Além do aspecto rural e do patrimônio cultural, Charles também está investindo em uma coisa que só este país tem: áreas florestais ainda preservadas! A natureza praticamente já foi devastada em todo continente europeu, restando poucos oásis de matas nativas justamente em países como a Romênia, que não foram completamente industrializados ainda.

Além das florestas, a Transilvânia também tem montanhas intactas, cavernas, rios cheios de vida e os últimos exemplares de várias espécies animais ameaçadas de extinção, como o urso-europeu. Numa era em que a consciência verde está cada vez maior, investir em projetos sócio-ambientais no país foi uma cartada de mestre para quem estava precisando de um pouco popularidade.

Viscri Romênia vista do altoA cidadezinha é só isso aí mesmo. Uma rua, praticamente.

E ali mesmo em Viscri, o príncipe em pessoa adquiriu uma propriedade do século XVIII, restaurou e decorou com mobiliário Székely e Saxão autêntico. Resultado, uma luxuosa hospedaria rural que oferece passeios à cavalo e trilhas para conhecer o que a natureza europeia um dia já foi.


Documentário mostrando Príncipe Charles e suas propriedades voltadas ao turismo rural na Transilvânia

Exemplo de turismo sustentável, de agricultura orgânica e de preservação de um modo de vida único, que não existe mais. Resumindo: um sucesso!

 

Para visitar Viscri

Viscri fica a meros 7 km da rodovia de quem está indo de Brasov para Sighisoara. Muita gente, mas muita gente mesmo passa por essa estrada, que é uma das principais do país. Você dobra a esquerda em Bunesti e tem uma placa apontando “Viscri – turismo rural”.

Olhem o vídeo da gente dirigindo por Bunesti admirando a arquitetura da Transilvânia e passando direto da entrada de Viscri:


Transilvânia from Andarilhos do Mundo on Vimeo.

A estradinha não é lá muito boa, mas são só 8km, passa rápido. A gente viu uma família pedindo carona (uma senhora com umas 3 crianças) e não tivemos coragem de abrir as portas do nosso carro para elas. Depois de termos feito nosso tour, vimos elas chegando a pé na cidade depois de terem caminhado por mais de uma hora. Ficamos com uma peninha…

Viscri Romênia paisagem ruralPaisagem vista da beira da estrada de quem vai para Viscri 

 

Visitando a Igreja Fortificada de Viscri

A Igreja foi construída por volta do ano 1100. E tem ainda apetrechos originais. Os bancos são super antigos, o forro é de madeira e, pasmem, tem até um órgão funcionante lá até hoje.

Viscri Romênia - altar do século XI

Claro que muita coisa foi sendo construída depois, com o passar do tempo. O legal é que eles montaram um museu mostrando a vida camponesa saxônica e detalhes da indumentária, das cerâmicas e da tecelagem típica dessa etnia.

Viscri-Romênia Museu do modo saxão de vida

Para subir no alto da torre principal, prepare-se para vários degraus de madeira rangendo e passagens apertadas. Dá um pouco de medo, porque as coisas parecem ser tão velhas, mas tão velhas que poderiam não aguentar o seu peso. Felizmente não houve nenhum contratempo e a gente conseguiu vistas lindas lá do alto.

Viscri Romênia vista da torre

Eu não consigo me lembrar do preço dos ingressos, mas foi algo entre 5 e 10 RON. Bem barato. E segundo as minhas pesquisas parece que eles fecham na hora do almoço.

 

Hospedagem em Viscri

Aqueles interessados em viver uma autêntica experiência de voltar no tempo podem querer se hospedar na cidade de 57 habitantes. Você pode obter mais informações no site da Count Kálnoky’s Estate ou da Viscri 125, ambas com excelentes avaliações no Trip Advisor. Atrações não faltam como café da manhã orgânico, trilhas, contato com animais e caçada a ursos nas florestas dos arredores o.O

Mesmo nós que gostamos de ficar longe das cidades grandes, achamos o lugar um pouco “pequeno demais”. Mas gosto é gosto né?

 

Querem ver mais sobre a Romênia aqui no blog? Temos mais de 10 artigos contando sobre a nossa experiência nesse país incrível. Você acessa nosso índice clicando no banner abaixo:

andarilhos do mundo na transilvânia

Escrito por: Gleiber Rodrigues
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23
Nov
2012
8 comentários
  1. Adorei o post! Muito legal!!!! Ow, mas que papo é esse de “eu prometo que vai ser bem rápido”? Assim vc me traumatiza, pois sabe que amo e escrevo demais sobre história, hahahahahahha. Não precisa economizar, não, até porque vc sabe relatar tudo de maneira bem interessante 🙂 bjão

    • Bem… O post “bem rápido” no fim ficou com quase 1500 palavras! Mas a parte da história foi mesmo rápida… Senão a galera foge! 😉

  2. Jennefer
    23/11/2012

    Vc já viu em Uberaba umas casinhas com fachada parecida? No bairro São Benedito tinha alguma coisa assim.
    Legal esse cuidado q vc tem de procurar sobre a história do lugar, muda o jeito de olhar as coisas.
    Essas muralhas e torres não te dão uma sensação déjà vu? 🙂

    • Sim… As casinhas coloridas são a cara das nossas casinhas do século XIX. Tem em Uberaba, tem em Pratápolis, tem até aqui em Porto Alegre… Eu falei do Pelourinho e de Trancoso só porque são mais famosos, ehehehehe. Mas o deja vu eu não captei…

  3. Rafael Carvalho
    24/11/2012

    Com certeza apaixonante! Muito legal!

  4. Marcia Tanikawa
    24/11/2012

    Gleiber,
    Muuuito legal!!
    Bem, sabe que adorei essa série dessas postagens, sou suspeita!
    Mais um lugar super diferente e até acho que toparíamos nos hospedar por aí e conhecer um pouco mais do lugar… só não achei muito legal a caçada de ursos..
    Um abraço!

    • Na verdade, eu não entendi bem o que eles fazem com os ursos. Vi isso no site dos hotéis, acho que é mais uma “caçada” para vê-los do que para abatê-los. Não faria muito sentido propogar um destino sustentável e sair matando espécies ameaçadas. Mas que eles usaram o termo “hunt” usaram! 😉

  5. Luciano Ertel
    07/01/2013

    Já ouvi muito sobre a Transilvânia, mas estou impressionado como este povo preserva a sua história. Por aqui tudo o que é velho, cai pela força das máquinas. Parabéns para este povo.