E você? É Turista ou Viajante?

Não sei se você já se perguntou ou leu alguma vez sobre este assunto, mas aí está uma pergunta que sempre me intrigou. Que há muitos estilos de viajar (já falei um pouco disso aqui), todos sabemos, mas há aqueles que se destacam em fazer viagens memoráveis, exóticas, inesquecíveis.

Já no outro extremo, há aquelas pessoas que são chamadas (já com um certo desprezo) de “turistas”. No linguajar do mundo do chamados “viajantes”, turistas são os que só viajam de pacote pronto, entram em tours engessados e só visitam os pontos turísticos principais, sem muita ousadia.


Destino de Turista ou de Viajante?

Mas no frigir dos ovos, o que diferencia o tão previsível e enfadonho “turista” do tão empolgante “viajante”?

Vem comigo! Vamos debater esse assunto?

Os Turistas

O que podemos dizer deles? Segundo o estudo que fiz (cof…cof…cof…), turistas são aqueles que, armados com suas câmeras, ou seu impulso consumidor, invadem as praças, praias e monumentos de lugares incríveis, apenas para admirar sua beleza, sem serem capazes de verdadeiramente tocar ou serem tocados pela grandiosidade do lugar que visitam.

Bem, acho essa uma definição bem precisa (modéstia à parte, eu que escrevi), porque resume muito dos “defeitos” desse “tipo” de gente:

a) Armado de Câmeras


Sem bateria, a gente apela para o celular…

O turista fotografa muito. Tem um afã de registrar todos os seus momentos para mostrar para todo mundo quando voltar. Está só de corpo presente, mas seu espírito está em outro espaço-tempo, com medo de esquecer no futuro aquilo que tem ali, belo, à sua frente. Na ânsia de eternizar o instante, ele se esquece de verdadeiramente vivê-lo.

 

b) Impulso consumidor

Todo turista tem que comprar seu souvenir, sua lembrancinha para os parentes, trazer umas roupinhas baratinhas, uns gadgets que no Brasil custam o dobro do preço. Volta com problemas para pagar as contas, com a mala estufada, paga às vezes até excesso de bagagem. Ou seja, não consegue se controlar diante de uma pechincha.

 

c) Invadem _____.


Imaginem o busão da excursão chegando…

Chamo a chegada de turistas de invasão, porque eles nunca vêm sozinhos. Metem-se em tours, vans, ônibus ou outro meio de transporte de grupo para chegarem em nuvem ao seu destino. Moradores sentem dua privacidade devassada e os nobres “viajantes” não conseguem mais ter paz e sossego para passear pelo lugar.

 

d) Apenas admiram


Neuschwanstein: famoso cartão postal alemão

O turista sabe que não pertence àquele lugar, então ele admira sua beleza e se satisfaz sensorialmente (visualmente, olfativamente, gastronomicamente ou por que não, sexualmente). Simples assim.

Ele sabe que um dia voltará ao ser lar de verdade, então não está fazendo nada, senão “consumindo” aquele destino enquanto descansa do estresse do trabalho e “curte” suas férias.

Por isso, em geral prefere que a agência escolha tudo por eles do que ter o trabalho de descobrir por si mesmo, pois seu lema é comodidade em primeiro lugar.

 

e) Não tocam e nem são tocados


Mercado Central de Santiago do Chile – super turístico

O turista não se permite ser transformado pela viagem que está fazendo e nem deixa nenhuma transformação no destino que visitou. Ele prefere continuar sendo ele mesmo, apenas escolhendo o que há de interessante para satisfazer o que sua personalidade considera interessante. Não interage muito, não faz amigos locais, e nem oferece nada da sua própria cultura ao lugar que está visitando.

 

Resumindo: o turista é um chato e um egoísta

Quando volta de viagem, em geral, ainda entedia seus amigos com histórias que ninguém quer ouvir ou com fotografias mal tiradas, causando o surgimento do famoso sentimento de inveja…

 

Os Viajantes

Agora, na parte dois dessa postagem, vamos falar dos maravilhosos viajantes. Vamos tentar fazer também uma definição? Acho que são aqueles que chegam ao seu destino sem alarde, deixando-se absorver pela experiência, consumindo cultura, arte e beleza de forma consciente e transformando-se a si e aos demais locais com quem interage; tudo, obviamente registrado através da sensibilidade de suas lentes e flashes.

Ou seja, o OPOSTO dos turistas. Vou, portanto, citar os mesmos cinco tópicos que citei acima para fazer o nosso contraponto.

 

a) Lentes da Arte

Viajantes sabem tirar boas fotos, a maioria é fotógrafo profissional ou fez ao menos algum curso. Embora saibam viver o momento presente de corpo e alma, também sabem capturar cenas cotidianas poucos convencionais (ou ângulos pouco convencionais dos pontos turísticos convencionais). Divulgam suas imagens depois e com isso o destino que visitaram é transformado em arte através das suas lentes.

 

b) Consumo consciente


Andando de transporte público no Bois de Vincennes, Paris

O viajante não compra souvenirs comuns. Traz para casa apenas coisas criativas, originais e diferentes do comum. Compra o que compraria um morador local, frequenta lavanderias, corta o cabelo, ou seja, o seu dia-a-dia continua sendo o seu dia-a-dia viajando ou não, pois ele é um cidadão do mundo.

 

c) Chegam ao seu Destino sem Alarde


Momento contemplativo

O viajante sempre chega sozinho ou com um grupo pequeno de amigos/namorado/família que também viaja de forma independente, seja com carro alugado, ou usando o sistema de transporte público. Muitas vezes conseguem ter amigos locais como guias turísticos, assim descobrindo os lugares que eles frequentam (nunca jamais vão a um restaurante ou barzinho “turístico”).

 

d) Interagem com os Locais

O viajante não se sente como tendo uma única pátria ou lar, senão como cidadão do mundo. Quando interage com outros destinos, nações e culturas, procurar incorporá-las ao invés de apenas admirá-los. Procura viver experiências diferentes do habitual, fazer novos amigos, conhecer novas formas de pensar, em vez de repetir mais do mesmo. Procura profundidade e significado, não apenas o desfrute.

 

e) Deixam-se Absorver pela Experiência


Pico Ben A’an na Escócia e na chuva!

Para conseguirem interagir com o seu destino, absorver e serem absorvidos, os viajantes viajam com tempo, nunca se misturando ao chamado “Turismo de Massa”. Procuram a baixa temporada, fogem da concorrência com os terríveis turistas e assim, descobrem experiências que ninguém mais descobriu.

No fundo, no fundo, o viajante tem cacife para ser tão especial!

 

Resumindo: o viajante é uma pessoa especial, sábia e que, com humildade, procura por novas formas de aprendizado.

Quando voltam, suas histórias inspiram a todos.

 

Conclusão: Sou Turista ou Viajante?

Vocês já devem ter percebido a minha opinião pessoal sobre esta dicotomia, né? Alguém conhece uma pessoa tão “turista” como eu descrevi? Conhecem alguém de alma tão nobre como esses “viajantes”?

Honestamente, eu duvido! Nenhum ser humano REAL é tão fútil ou tão “superior” quanto foi descrito.

Algumas pessoas pendem mais para um lado que para o outro, seja por sua personalidade, seja pela sua disponibilidade de tempo ou dinheiro, seja pelo sua vocação artística.

Explico:
– Se eu tenho um fim de semana livre e tenho vontade de conhecer o Rio, eu vou SIM aos pontos-turísticos-clichê e posso precisar otimizar meu tempo me integrando a um tour.
– Se eu estou esgotado e quero passar uma semana num resort de praia apenas relaxando de barriga pra cima na beira de uma piscina, dá licença? Sou um ser “fútil” por causa disso?
– Se eu faço um planejamento para fazer a trilha de 20 dias daqui há dois anos até o topo do Aconcágua, significa que sou mais “homem” do que aqueles que farão o famoso tour de 20 dias por 35 países europeus?

Vamos respeitar os estilos e preferências de todos e assumir que, se existe mesmo a distinção entre “viajante” e “turista”, então todos somos um pouco de cada, conforme a necessidade ou a oportunidade.

Abraços a todos e comentem aqui embaixo o que vocês acham!


Andarilhos do Mundo SEMPRE

 

Para se aprofundarem no tema:

Byron – Viaje na Viagem, por Ricardo Freire – publicada no Divirta-se do Estadão
Turista ou Viajante? – Blog Vida de Equilibrista
Não Sou Turista, sou Viajante – Overblog, do Overmundo por G. Tomé
Sobre o Que Viajar Significa – Andarilhos do Mundo
Turistas ou Viajantes? – Estadão, por Mr. Miles o homem mais viajado do mundo
De Turistas a Viajantes, por Arnaldo Interata do Fatos e Fotos de Viagem
Escrito por: Gleiber Rodrigues
Compartilhe:
comentarios:22
Posts Relacionados:
11
Oct
2011
22 comentários
  1. Jodrian Freitas
    11/10/2011

    Gleiber,
    Acho que devemos ir além dos rótulos embora tenhamos sim uma necessidade de classificar para melhor compreender. Eu pessoalmente me classifico como Turista de Aventura. Quem pratica turismo é turista. A forma de fazê-lo é que pode variar e com isso o nível de interação com os locais visitados. Acredito que o termo turista ficou um pouco desgastado por grupos que se comportam como manadas e pouco interagem com a cultura local, com as pessoas, etc. Paciência….

  2. Concordo em gênero, número e grau. O Turismo de Aventura é bem diferente do Turismo Histórico, ou o Turismo de Praia. O turismo como puro e simples artigo de consumo não tem como escapar de gerar um certo desgaste. Quem é que gosta da invasão da manada armada de máquinas fotográficas?

  3. Rafael Leick
    11/10/2011

    Oi Gleiber! Vale a pena levantar a discussão, mas como você mesmo disse, é inevitável ter um pouco dos dois. Eu adoro tirar fotos ‘artísticas’, mas vou perder a foto tradicional em frente ao Coliseu romano já que tô lá, só por que sou ‘viajante’ e não ‘turista’? Claro que não. Como bem disse nosso amigo Jodrian, temos que ir além dos rótulos.
    Mas o mal comportamento de uns, infelizmente, acaba com a imagem de todos.
    Mas curti a discussão. Mandarei um RT no The Way Travel!
    Abraco! Rafa

  4. Andrea
    11/10/2011

    Adorei o post. Sou mais viajante com alguns detalhes de turista. Mas poucos. Gosto de vivenciar o lugar. Mas, às vezes, por falta de tempo para organizar uma viagem, acabo pegando algo ‘meio’ pronto (tipo passagens e hotel), mas com mt tempo livre para eu me virar sozinha. Não me importo muito com rótulos. O certo é que tento absorver ao máximo a cultura local, fazendo um intercâmbio. Acho que sempre se volta diferente de uma viagem. E assim quero continuar desbravando o mundo e, depois, postando no blogue as melhores dicas.

  5. Então, fico muito feliz com os comentários, que sempre contribuem muito com o texto! Sobre fotografia, Rafael, como eu queria ser mais artístico. Eu tento, tento, tento, e muto lá de vez em quando sai algo que preste. Então neste ponto sou muito mais “turista” do que “viajante” (questão de limitação, fazer o quê? hehehe). Sou meio tímido de conversar com os locais, escorrego muitas vezes no inglês e quando as coisas apertam, já precisei recorrer a tours prontos e muitas vezes GOSTEI! Concordo com a Andrea que todos voltamos transformados de uma viagem (sejamos turistas ou viajantes), mas quanto mais próximos estivermos do estilo “viajante”, maior é essa experiência transformadora!

  6. Rádio Motorola
    14/10/2011

    Realmente nota a grande diferença depois de um artigo bacana desse

  7. Obrigado! 🙂

  8. enquanto lia o texto, ficava pensando se não existia um “meio termo” – até que cheguei ao fim. Tenho um radicalismo quando viajo: procuro evitar shopping center de toda e qualquer maneira. Também procuro evitar programas de “turistas”, mas as vezes não tem como não fazer um city tour, caso você tenha pouquíssimo tempo no lugar e queira conhecer além, da plaza de armas, por exemplo ou ir ao shopping comprar um agasalho porque você viajou para o lugar no verão achando que só ia precisar de bermudas e sandálias, mas que não tinha ideia de que nem sempre o verão de um país é igual ao verão que você esta acostumado a ter . Gostei do post. Sem radicalismos. Somos todos humanos.

    • Obrigado pela participação no nosso blog, Roberta. E fico super feliz de você ter gostado do post. A ideia era essa mesma, fazer as pessoas refletirem que não existe essa de “turista são os outros, eu sou é viajante”. E abaixo os preconceitos! 😉

  9. Jennefer
    17/09/2012

    Aiai, enquato lia a descrição do ‘viajante’ só consegui pensar no quanto vc puxa a sardinha pro seu lado (coisa de gente q se conhece a tanto tempo), pra depois me surpreender (muito positivamente) com a conclusão do post, muito acolhedor e consciente, pq ao q me lembre, se não foi a primeira foi uma das, a primeira viagem de vcs ao exterior foi um pacote né? Gostei muito do post 🙂

    • Ai Jen! A gente não vai mais de pacote hoje em dia porque sai mais barato ir por conta! Não tenho nada contra os pacotes!!! E pelo jeito, deu para entender bem então o que eu quis dizer, eheheheh

  10. Vinícius Gouvêa
    02/09/2013

    Me identifiquei bastante com o viajante descrito no texto. Tenho que admitir que subestimo muito as viagens do ditos turistas e procura evitá-las. Concordo com você e já não vou mais criticar meus pais pelas viagens que eles fazem. O que não vai me impedir de tentar fazer uma viagem de “viajantes” com eles e minha irmã no ano que vem. Quem sabe eles aderem ao clube dos mochileiros :p

    • Como eu sempre digo, a gente é “viajante” quando pode, e “turista” quando não há outro jeito… De um jeito ou de outro, viajar vai sempre valer à pena. 🙂

  11. Thalita Gleice
    19/12/2013

    Nossa! Nem sei o que dizer … To emocionada, sinceramente.
    Sempre soube que eu era uma viajante, só não sabia definir o nome 🙂
    Meu sonho sempre foi viajar o mundo, eu tenho 18 anos e não penso em faculdade, mas sim em conhecer todos os lugares possíveis do mundo, suas culturas, pessoas. Isso e errado ? Acho que não.
    Quando li esse post sobre a diferença entre turista e viajante, me identifiquei na hora com a segunda opção, e fiquei muito feliz.
    Adorei demais o blog, nossa, quando leio suas postagens me sinto como se estivesse presente com vocês. Ha tempos estou procurando pessoas que me entendam haha, e achei o blog Andarilhos do mundo. Um dia pretendo também ser uma, genuinamente não turisticamente rs.
    Abraços a todos voces, carinhosamente, Thalita.

    • Oi Thalita, viajar é muito bom, mas lembre-se que para dar esses grandes passos para conhecermos a nós mesmos, precisamos ter pés no chão plantados em algum lugar. Ter uma profissão e uma forma de poder bancar por nós mesmos as nossas viagens é uma forma excelente de nos sentirmos em paz quando estivermos conhecendo o mundo. Se a sua profissão puder ser trabalhar viajando, aí sim, é a vida perfeita! Abraços e obrigado pelo carinho.

  12. Bruna
    23/01/2015

    Amei essa descrição. Estava super tentando me classificar como viajante, mas a última parte me surpreendeu! Eu sou turista e viajante – conforme a necessidade ou a oportunidade.

  13. Cibele
    02/03/2015

    Olá,
    Descobri o blog de vocês hoje, já li muito posts e estou adorando todos!!!
    Daí comecei a ler este post e a ficar preocupada.. pensei: poxa, os caras têm um blog tão legal e vão ficar nessa de classificar turista e viajante…
    Mas que surpresa boa quando cheguei ao final! Tanto que decidi até deixar meu recado por aqui.
    Eu tbém prefiro viajar independente, até porque considero a preparação uma das melhores partes da viagem, pesquisar o destino, estudar a história do lugar.. tudo isso me deixa tão feliz quanto a viagem em si. Mas quem não compra um souvenir ou fica na fila pra ver certas atrações, pode sentir falta de algo depois…
    Parabéns pelo blog, já está nos meus favoritos!

  14. Norma Texeira
    24/04/2015

    Hii!! Quase uma sessão de terapia turistica!!KKK Adorei!! Dá para sentir que viagens abre os nossos horizontes!! Muito divertido!! Parabéns para todos

  15. deivid lincoln
    23/01/2017

    Estava ficando com raiva do texto até ler a conclusão.. De fato acho que todo mundo que viaja tem um pouco dos dois. Ninguém é só turista ou só viajante, o que dá cansaço é ouvir o que se acha “viajante” se julgar superior aos demais, porque fez “isso” ou “aquilo” diferente…