Degustando Culturas – #BAD11 – Blog Action Day 2011

Não conheço forma mais fácil, direta e acessível de provar a cultura de um povo do que apreciar a sua gastronomia. Dispostos sob as mais diferentes apresentações, acompanhamentos, utensílios e hábitos, anos de história e tradição transformam elementos nascidos nas entranhas da terra em algo que podemos digerir, ver, cheirar e sentir.

Se pararmos para pensar é quase mágica! Pelo menos para mim!


Este post tem alto teor calórico… Cuidado!

E apesar de haver chatos que proclamam a comida como um mero alimento para o corpo, concordo com os filósofos do mundo do turismo que se há uma atração verdadeiramente imperdível em uma viagem, é a degustação da comida local.

 

Prato Típico

O mais incrível é pensar como é que acontece o “nascimento” de um prato típico. Não há como impor ou escolher, ele simplesmente se estabelece. E mesmo que as diferenças nos padrões alimentares dos indivíduos em uma dada localização geográfica sejam muitas vezes radicais e gritantes, há sempre uma espécie de fio condutor que as permeia. Explico:


Essas bolinhas de farinha são típicas Spätzli Suíças

Aqui no Rio Grande do Sul, apesar de eu, como indivíduo, passar semanas sem comer feijão, sei que em todos os restaurantes de buffet, nos supermercados e nos lares da maioria das pessoas, o feijão faz parte do padrão do dia-a-dia. E não é qualquer feijão, mas o feijão preto! E, mais ainda, normalmente acrescido de bacon, ou costela de porco defumada ou linguiça.

Em Minas Gerais, na casa da minha mãe, tem feijão todos os dias, mas é normalmente feijão jalo, temperado só com alho e cebola, coisa que gaúchos mal conhecem!!! Algum gaúcho aí conhece feijão JALO???


Feijão usado de modo muito particular

E estamos falando de Brasil, que de norte a sul, usará feijões como parte da sua “norma padrão gastronômica”. Quem conhece comida mexicana ou os “full english breakfast” sabe que feijões podem ser usados de forma completamente diferente, quando se trata de culturas diferentes.

 

Coragem

Quando resolvemos sair do conforto de nossas camas, dos nossos canais de TV e da nossa cozinha para nos lançarmos em uma viagem teremos inevitavelmente a chance de ingerir frutas, legumes, carnes e peixes preparados de maneira totalmente diversa da que estamos habituados.

Infelizmente, nem todas as pessoas estão dispostas a isso. Tem gente que não gosta de se aventurar em sensações que destoem muito daquelas a que está familiarizado. E cá entre nós, há de se ter coragem para comer um escargot ou até mesmo o tal de foie gras, que só de saber que é feito de fígado de pato já me embrulha o estômago.


Quem arrisca? Frangos caramelizados em Chinatown – Londres

Vamos ser honestos, embora eu adore experimentar novidades e viajar é o mais perfeito exemplo de como conseguir fazer isso 24 horas por dia, não dá para dizer que a tal gastronomia local será sempre deliciosa.Explico: até botei na boca chinchulines e riñones de uma parrillada completa no Uruguai, mas meu estômago não quis receber os quitutes.


Carne de tudo quanto é jeito!

Não sabem o que são riñones, nem chinchulines? Cliquem nos nomes para saber, mas aviso que serão fortes emoções, não recomendadas se você estiver lendo isso enquanto faz uma refeição norma, por exemplo.

 

Os Polêmicos BigMacs

Não sei se as pessoas que vão apenas a restaurantes já conhecidos como o McDonalds durante as suas viagem estão certas ou erradas, pois não gosto de julgar seres humanos, em nenhuma circunstância.

Mas cá entre nós, se é para comer BigMac no Egito, então não precisava nem ter saído de casa!!!
Vou confessar que eu mesmo já comi um Mac em Luxor, no Egito. Mas acho que mereço ser redimido um dia desse pecado, pois fui voto vencido no meio de uma excursão.



Não é Big Mac, mas também é “mais do mesmo” – Londres

Às vezes, até precisamos recorrer a algo mais “comum” por uma questão de praticidade, pressa ou preço. Mas salvo raras exceções (me lembrei! comi um lanche do McDonalds num shopping de Berna, na Suíça também, posso colocar a culpa no preço caríssimo do restaurante do hotel Holliday Inn e o fato de que era o único “fast” aberto às 22h do shopping?), defendo que devemos sempre dar preferência a conhecer novos sabores do que repetir sempre o mesmo sorvete de chocolate – desde que isso não inclua comer miúdos, é claro.

 

A Verdadeira Comida Local

Engana-se quem acha que os pratos típicos de uma região só são encontrados em restaurantes finos ou turísticos. Na verdade, os lugares mais divertidos para uma verdadeira experiência gastronômica de “imersão” para mim são as feiras, os supermercados e as bancas de comida de rua.

Quando se fala de comida de rua, por exemplo, sempre me vem Praga, na República Tcheca na cabeça. Quer coisa melhor do que aqueles pratos com batata, linguiça e repolho (SIM, repolho….) feitos ali, na sua frente e que substituem qualquer refeição por meros 10-15 reais?


A comida sendo feita no tacho à nossa frente, em Praga

Em Santiago, ao optar pela hospedagem em um apart hotel, compramos pães, frutos do mar e guloseimas no supermercado e até arriscamos cozinhar com ingredientes diferentes ao que estávamos acostumados (e ficou bom!).Não me esqueço de quando finalmente encontramos um Mercado (público?) em Viena e depois de sentir aromas e cheiros do mundo inteiro, matamos um autêntico Wiener Schnitzel. Não era lá essas coisas, mas era típico e serviu para aliviar a fome pelo resto do dia (como é grande aquilo, né?)


A carne ocupa o prato todo!

 

Comida Quebra-Galho

Também faz parte da exploração cultural gastronômica aqueles lanchinhos e as comidinhas que pegamos aqui e ali para enganar o estômago enquanto não chega a hora da verdadeira refeição. Se o orçamento está apertado, podemos dar um jeito na fome, sem cair na mesmice, sabendo usar um modo menos ortodoxo.

Explico: Em Paris, é chiquérrimo fazer piquenique. Passe num supermercado (adoro!), compre um vinho barato, umas baguetes e queijos diversos (delícia de Deus!!!!). Pronto, vá a uma praça e imite os locais. Não tem nada mais típico e delicioso. No Jardim de Luxemburgo, então…


Delícia de quebra-galho: Alfajor com frapê de café em Buenos Aires

Crepe de nutela, croque-madame, salgados e docinhos vendidos pela imigrante vietnamita…. Muito nos viramos em Paris com essas coisinhas. Na Itália, os paninis e fatias de pizza também tem o seu valor! Principalmente com os preços salgados dos restaurantes “de verdade”.

 

Gastronomia

 


Ojo de Bife para Almoçar na Recoleta, Buenos Aires

Agora, cá entre nós. A gente pode até não ter cacife para fazer todas as refeições de uma viagem em bons restaurantes, bebendo bons vinhos. Mas ao menos devemos separar uma grana para comer ALGUMAS VEZES essas maravilhosas refeições.Na “segurança” do mundinho em que vivemos nosso dia-a-dia, não é sempre que vamos a esse tipo de estabelecimento, mas a viagem é justamente a desculpa que temos para vivermos uma classe social acima da nossa, pelo menos por alguns dias (como já dizia Ricardo Freire).


Aos pés do castelo Hohenschwangau, Alemanha

Então não deixe de provar coisas como um risoto de Aspargos em Zurich harmonizado por um belo branco italiano numa autêntica cantina Suíça. Ou um presunto de carne de cerdo num chalé aos pés das montanhas. Ou camarões com guacamole à beira do lago Genebra…Não deixe de viver àquela encenação toda de prato disso, prato daquilo, leva talher, traz talher, copo de vinho, copo de água, couvert, guardanapo no colo… E mesmo que no final, você sempre se assuste um pouco com a conta, lembre-se sempre dessa frase:

No fundo, no fundo, a gente não come para viver, a gente vive é para COMER.

Blog Action Day 2011 – #BAD11

Este post é parte do Ação Mundial movida por blogueiros com o tema “Food” (Comida). Como blogueiro de viagem, não vou aqui ficar escrevendo sobre a fome ou sobre a falta de comida, que poderia ser o tema real de uma ação mundial “politicamente correta”.

Achei melhor falar sobre outro tema: como a comida pode refletir a cultura de um povo e como nós turistas podemos ter acesso a essa cultura ao comer durante uma viagem. Então, seja da forma que for, pagando caro ou barato, fast ou slow, vegetariano ou comedor de miúdos: todos nós comemos e a escolha do que comer pode servir apenas para alimentar nossos corpos ou para descobrirmos novas sensações. Em uma viagem, acredito que comer pode nos conectar ao lugar em que estamos de forma visceral.

E, se estou aqui falando de como “comer bem” enquanto tem gente por aí passando fome, é porque acredito que a mesma atitude que faz alguém sair do conforto do universo dos sabores conhecidos para provar um picolé de Guabiroba, é a atitude de quem não se conforma com as mesmisses do seu mundo e ousa recriá-lo, transformá-lo, superá-lo.

Abraços a todos!

Confiram também a contribuição dos outros blogueiros de turismo participantes do #BAD11
Blog Action Day 2011 | Dicas e Roteiros de Viagem | @BlogDRV
Blog Action Day 2011 – Food | Viaggiando | @CamilaNavarro
Comida Automatizada | Uma Malla pelo Mundo | @LuciaMalla
Comida e o Turismo | Vida de Turista | @vidadeturista
Comidas pelo Mundo | Viagem e Viagens | @ViagemEViagens
O Que é Comida para Você | Dondeando Por Aí | @dondeandoporai
O Pão Nosso de Cada Dia | Viaje no Detalhe | @viajenodetalhe
Saboreando a Viagem | Turismo de Aventura | @Aventuramango
Slow Food – A Toscana é O lugar para isso | Pelo Mundo | @Maricampos

 

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Escrito por: Gleiber Rodrigues
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Oct
2011
5 comentários
  1. Jodrian Freitas
    16/10/2011

    Muito bem escrito Gleiber. Traduz o que penso também: as experiências que podemos ter nas viagens. Valeu!!

  2. Outros Ares
    16/10/2011

    Gleeeeeeeeiber!!! Amei o post. EU viajei completamente nas delícias culturais do mundo.

    Puxa, quase na hora do almoço e lendo este post é quase um pecado.

    Só complementando a história do feijão. Aqui em Fortaleza o forte é o feijão de corda e principalmente o feijão verde, que é o feijão de corda maduro. Quando vier a fortaleza não deixe de experimentar o feijão do Docentes e Decentes… é uma indescência aquele prato. Vem em uma panelinha de barro, borbulando de tão quente com queijos e mais queijos, creme de leite, nata, requeijão…. um pecado!!!

    Beijo grande!!

    Érika

  3. Delícia de post!!! Pois eu também entrei no mesmo clima, viu? Não fui nada politicamente correta; falei no meu post também justamente do mesmo assunto – como gastronomia e viagem andam sempre, sempre, sempre, de mãos dadas! Eu não consigo nem pensar em sair de um país sem provar alguns de seus quitutes típicos – e provo mesmo, nem que seja pra depois poder dizer que não curti 😉

  4. As experiências da viagem são o que há de mais legal e comer coisas diferentes me seduz muito. Legal que vocês também gostaram. Eu provei o tal feijão verde em Pernambuco, mas eu juro que eu não entendi nada, porque essa história de se chamar verde depois que ficou maduro me confunde os neurônios!!!! Só me lembro que era bom demais. Prova da nossa diversidade, criatividade e inventividade! Comer é isso: degustar culturas. E, apesar de não parecer algo “engajado”, como a Mari disse, acho que experimentar sabores locais é reforçar a sustentabilidade SIM. Só não quis me aprofundar no tema, com medo de falar besteira (já que não é minha área). Abraços a todos e obrigado demais pela contribuição!!!

  5. Clarissa Donda
    16/10/2011

    Gleiber, adorei o post! E as fotos!

    Concordo: acho que comida em viagem é mais experiência do que comida mesmo. Impressionante como a impressão gastronômica que fazemos de certo destino as vezes fica muito mais forte do que as outras… Do tipo: “Não gostei do lugar, mas a comida era ótima!” e vice-versa…
    E com um mundo tão “Made in China” hoje em dia, com tudo copiado, globalizado, acho que comida ainda é uma das poucas que mantém essa identidadde cultural. Aí, é exatamente o que você falou: comer é degustar culturas, vivenciar culturas…
    Adorei! Ótimo post… Gostei bastante dessa blogagem coletiva!