Tá escrito OTÁRIO na minha testa?

Que o povo argentino tem fama de metido, mal-educado e orgulhoso, todo brasileiro sabe. Entretanto, depois de conhecê-los, discordei completamente desse estereótipo.

Se a simpatia dos argentinos vem melhorando ou sempre esteve ali escondida atrás do véu da inveja dos brasileiros, eu não sei. Sim, porque Buenos Aires é tão linda que MERECE despertar inveja, na boa.

O que me surpreendeu nessa última viagem foi ver que eles estão querendo nos vencer num campo em que nós sempre fomos campeões: o da malandragem.

Enquanto aqui parece estar surgindo uma de tratar o turista com mais respeito; do lado de lá, atos de má fé já viraram lugar comum.

Leiam os “causos” abaixo e me digam: estou exagerando?

 

1) Terminal do Buquebus em Buenos Aires

A cena é velha conhecida, pois acontece igual em qualquer aeroporto brasileiro. Uma multidão desembarcando e os caras atacando a gente em espanhol, portunhol e se brincar, até em inglês, oferecendo um carro.

Eu, como blogueiro experiente (Cof! Cof! Cof!) já avisei a minha trupe: ignorem os caras, vamos pegar os táxis comuns. Mas o Sandro sempre com pressa, teve que dirigir sua palavra para um desses que ofereciam remis (carro a preço fixo):

– Moço, onde é que se pega táxi?
– Para onde vocês vão? – disse ele, em espanhol.
– Para a Recoleta – tive que me meter, pois o Sandro não sabia para onde a gente ia.
– Faço a 60 pesos.
– Obrigado, senhor, a gente quer ir de táxi com taxímetro.
– Mas quantos vocês são?
– Somos 4 pessoas, 4 malas. A gente vai pegar um táxi comum, obrigado. Sabe onde é o ponto de táxi?
– Quatro pessoas? Quatro malas? – e emendou uma expressão de completa incredulidade misturada com algo de fúria – Saiam lá na avenida, caminhem umas 4 quadras e tentem atacar um carro na rua. Terão sorte se alguém parar.

Dito isso, praguejou alguma outra coisa que eu não compreendi. Depois de me desvencilhar dele, vi ali adiante a fila para pegar o táxi, dentro do próprio terminal. Depois de uns 10 minutos de fila, pegamos um carro grande, couberam todas as malas tranquilamente.

Preço: 20 pesos.
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2) Pedindo para o hotel chamar um táxi para o Aeroporto

Essa eu não sei se deveria ser encarada como maldade. Mas vou incluir igual, pois exigiu uma certa ginga de brasileiro para resolver. Inocentemente perguntamos para a moça da recepção:

– Queríamos um táxi para Aeroparque, poderia chamar pra nós, por favor?
– Claro! – e emendou um sorriso. Lembram do que comentei sobre a simpatia das argentinas?
– Precisava ser um carro grande, que coubessem 4 malas, tá?
– Eu até tenho os preços aqui. Carro comum são 70 pesos, mas para vocês, teria que ser um utilitário, 110 pesos.
– Moça, você deve estar olhando os preços para o aeroporto de Ezeiza, a gente está indo para o Aeroparque.
– Mas é isso mesmo, olha aqui! – E vi que os preços para Ezeiza eram ainda mais ultrajantes.
– Obrigado, então. A gente vai ver se consegue outro jeito, qualquer coisa a gente volta aqui para falar contigo, tá?
– Disponham! – Dessa vez sem nenhum traço de indignação.

Saímos na rua e o primeiro táxi que passou estava livre, couberam todas as malas e chegamos sãos e salvos no Aeroparque por meros 30 pesos.

Andarilhos 2 x Argentinos 0

 

3) Desistência do Remis pelas Bodegas em Mendoza

Essa história eu já contei no post do Tour das Bodegas em Mendoza. Mas não custa reincluí-la para valer no placar.

Combinamos um carro (remis) para um tour pelas bodegas de Mendoza. O cara da recepção do hotel fez os telefonemas, arranjando tudo conforme nossa solicitação (lembram do que eu disse? Argentinos SÃO solícitos!). Combinamos preço, horário, tudo via telefone e ficamos acertados para o dia seguinte.

Depois de dar uma banda pela cidade, vimos uma outra opção de tour por quase 50% do preço (embora bem mais simples) e eu liguei para o Remis exatas duas horas depois para cancelar.

Depois de um “quase” bate-boca por telefone ao ser cobrado em 50% pelo cancelamento, ele quis tirar satisfações pessoalmente. Se não fossem meus anos de meditação budista, tinha dado barraco CERTO. Dei a ele todo o dinheiro que tinha na carteira (30% do preço do passeio) e terminei a história com uma vaga sensação de ter sido assaltado.

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4) Translado “gratuito” do hotel ao aeroporto

O Hotel Carollo, em Mendoza oferece translado para o aeroporto gratuitamente. Seria um ponto de elogio, não fosse um pequeno detalhe. Os horários são fixos. Ou você vai na hora marcada, ou paga um táxi para ir no horário que quiser (ou um desses remis, que praga!).

Tá, cortesia é cortesia. Não vou ficar aqui reclamando. Para vocês entenderem nossa situação, o voo era às 16:10h para Santiago e o carro grátis saía às 15h. Os caras da recepção GARANTIRAM que dava tempo de pegar o voo, mesmo com 20min de deslocamento. Mas cá entre nós, eu não ia arriscar, né? Eram 14:15h e lá estávamos nós negociando se não dava para eles nos levarem de graça mais cedo.

Eles não toparam, lógico (tá, argentinos NEM SEMPRE são solícitos) e a gente pediu para chamarem um desses remis (segundo eles, um táxi comum ia demorar muito para aparecer). Vinte minutos depois, chegou o tal do carro, que nos levou ao aeroporto a tempo de todos os trâmites.

– Tá, e aí? Tá reclamando do quê então, Andarilho?

Só tomando na cabeça mesmo para aprender!

Esquecemos de perguntar o preço da corrida antes de embarcar. No dia que chegamos em Mendoza a corrida aeroporto – hotel tinha custado 35 pesos. Trajeto hotel – aeroporto sem perguntar o preço antes: 50 pesos.

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5) Táxi Aeroparque x Hotel em Buenos Aires

Como todo blogueiro de turismo sabe, os taxistas de Buenos Aires têm vários golpes manjados e um deles é pegar uma nota de 100 pesos sua, dizer que é falsa e muito rapidamente lhe devolver uma nota realmente falsa enquanto ele embolsa a sua nota verdadeira.

Precavidos, portanto, levamos uns 15 minutos tentando trocar uma nota de 100 em algum lugar ainda no aeroporto, só para evitar um eventual golpe do futuro taxista (será que eu ando muito paranóico? O que vocês acham?).

Sem sucesso, ÓBVIO (retiro o que eu disse sobre argentinos serem solícitos!!!). Então, fomos “assaltados” comprando uma água mineral por 12 pesos (!!!) só para trocar a tal nota de 100.

Mas isso não é tudo…

Chegamos no ponto do táxi e o cara que coordenava tudo, BEEEEM solícito, fez um carro daqueles BEEEM grandes vir de ré lá de não sei onde para nos pegar. Nós e as nossas 5 malas (sim, as malas aumentaram ao longo da viagem)…

Aquilo deu uma trabalheira danada para eles, mas antes de sentir aquela vontade benevolente e espontânea de dar uma gorjeta para o cara que coordenou aquela bagunça, ele mesmo pediu sua “propina”, que vou ser honesto, até dei de bom grado (5 pesos = 2 reais).

Malas “arribadas”, caos no trânsito do aeroporto resolvido, carro em movimento, o chofer desliga o taxímetro e larga:

– A corrida vai te sair 80 pesos, tá?

Aquilo me atingiu quase como uma marretada nos cornos e, atônito, devo ter demorado quase um minuto para dizer um “Ahnrram” enquanto engolia em seco pensando que o Sandro ali do meu lado deveria estar com uma fúria ainda 2.876.487.638.462.648 maior.

DESGRAÇADO! FILHO DE UMA #$%&¨%!!! Essa mesma corrida tinha custado 30 pesos semana passada!!!

Passei todo o trajeto calculando mentalmente o quanto aqueles 80 pesos efetivamente custavam, incluindo o remédio para úlcera que OBVIAMENTE eu teria que comprar.

O pior é que o cara, nos primeiro 15 minutos, ainda tentou puxar assunto, tipo O SUPER simpático. Depois de se dar conta que nossa mudez era o prenúncio de um ataque iminente de fúria, o cara finalmente calou a boca e ficou aquele clima de velório.

Descemos e pagamos enquanto eu só pensava:

– Deve mesmo estar escrito OTÁRIO na minha testa.

Andarilhos 2 x Argentinos 3

Mais histórias de golpes em viagem?
Emboscada de Cordillera – Blog Mototuristas

 

Mais sobre a Argentina aqui nos Andarilhos do Mundo?   

 

Escrito por: Gleiber Rodrigues
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Sep
2011
12 comentários
  1. deisoca
    24/09/2011

    Hahah1\Adorei! Tb sou neurótica com essas coisas. Querer ser malandro pra cima da gente não dá, né?

  2. Carolmay
    24/09/2011

    Normal! Passei pelas mesmas coisas, tem sempre que saber o preço da corrida antes. Perguntar antes de entrar no taxi qual o preço ou se vai pelo taxímetro. E mesmo assim, na penúltima vez em Buenos Aires peguei um taxímetro que rodava com o dobro da velocidade. Foi o dobro do preço do Aeroparque para a Recoleta. Pode?

  3. Outros Ares
    24/09/2011

    Fui a primeira vez na argentina em 2008 e desde aquela época já era comum estes “assaltos” nos táxis.. Já vi que não mudou nada e ainda ficou pior…

    Deve ser a recessão, quebradeira que está por lá, aí querem dá de espertos nos turistas!

    Adorei o artigo Gleiber.

    Beijos,

    Érika

  4. Gleiber
    24/09/2011

    Gente, valeu pela contribuição de vocês! Então… Eu tive a sensação de que as coisas estão piores comparando a minha viagem de 2009. E a gente não precisa ir muito longe, porque aqui no Brasil essas coisas infelizmente também acontecem. Só que tão pertinho, no Chile e no Uruguai não tivemos nenhum desses problemas! Será que eles não percebem que isso só queima o filme deles próprios?

  5. Celinha
    24/09/2011

    Eita…dessa vez, os hermanos levaram vantagem. Quando estive lá, meu perrengue foi com nota falsa que me passaram como troco numa loja. Ess é uma outra coisa que quem vai precisa ficar muito atento.
    Seu blog é nota 10, Gleiber!
    Abraço,
    Célia (@regina26)

  6. Gleiber
    24/09/2011

    Por mais que a gente tente se precaver, eles conseguem achar uma para serem mais espertos que a gente… :/ Brigadão, Célia!

  7. Juliana Ramos
    06/06/2013

    Não tem jeito, pegar taxi em Buenos Aires é sempre um problema. Eles ficam ali na espreita só olhando quem vai ser lesado. Outra coisa que eles fazem muito é não querer levar você aonde vc pediu para ir, ficam teimando, brigam e tudo, falam que o lugar está fechado, que o lugar é perigoso. A cidade é linda, mas tem que ficar esperto com esses taxistas!! Maneiríssimo o post!!!!

    • Obrigado Juliana! O pior é que aqui no Brasil, tem algumas cidades que estão começando a ficar famosas pelo mesmo motivo. Pelo menos a gente não tem o golpe da nota falsa… Abraços

  8. Karynne
    16/09/2013

    Irei, pela 2ª vez, a BsAs daqui a 3 dias. Triste ter de perder tempo para programar até o taxi q irei pegar simplesmente por questões de cunho moral do ser humano. Espero não passar por nenhuma situação desagradável.
    Ah, gostei demais do blog.

    • Que legal que você gostou do blog, Karynne. É triste e o pior, mesmo já preparados, mesmo assim eles conseguiram nos passar a perna em uma ou duas vezes, né? 🙁

  9. nidia
    27/09/2013

    Taxista na Argentina é mestre em dar troco em nota falsa.
    Em Calafate andamos do hotel até a rua principal a pé todos os dias, mas uma noite estava muito vento e decidimos pegar um taxi que tentou dar umas voltas a mais.Meu marido logo comentou que ele tinha se enganado porque o hotel ficava na rua que ele tinha acabado de passar a entrada. Exxxxpertoooooo!!!!!.